(Agromaxima | Radar do Trigo)
O governo argentino anunciou a redução das retenciones do trigo de 9,5% para 7,5%, em uma estratégia mais ampla de incentivo à competitividade do setor agroindustrial. A mudança ocorre simultaneamente ao avanço da colheita da safra 2025/26, que já desponta como uma das maiores da história.
Entretanto, além da questão tributária, outro fator ganhou destaque nesta semana: a entrada da colheita na região de Buenos Aires, onde a qualidade costuma superar a observada no norte do país. Isso poderá alterar de forma relevante a oferta de trigo panificável disponível para exportação ao Brasil.
Qualidade do trigo argentino: um ponto de virada em Buenos Aires
Até poucas semanas atrás, os relatórios das Bolsas de Cereales indicavam proteína muito baixa (9%–10%) nas regiões de Santa Fé, Entre Ríos e no chamado eixo “up-river”. Esse padrão inviabiliza a exportação ao Brasil, que exige:
- ≥ 11% de proteína, e preferencialmente
- ≥ 11,5% para atender às especificações industriais,
- chegando a 12% para misturas premium.
Esse déficit de proteína, aliado à superoferta da safra, explicava:
- os preços extremamente baixos do trigo argentino fraco (US$ 165–175/t FOB),
- a escassez de lotes aptos ao Brasil, mais caros (US$ 185–210/t FOB),
- e a necessidade dos moinhos brasileiros de selecionar cuidadosamente a origem.
Agora, porém, o cenário começa a mudar.
Com o avanço da colheita para Buenos Aires — principal região produtora da Argentina, caracterizada por solos mais férteis e manejo mais uniforme — os primeiros relatórios privados indicam melhora na qualidade, especialmente nos seguintes pontos:
- Proteína mais elevada, com maior probabilidade de superar o piso de 11,5%,
- GLU e W (força de glúten) historicamente superiores,
- Maior estabilidade de moagem,
- Grãos com melhor peso hectolítrico.
Esses indicadores são consistentes com padrões observados em anos de alta produtividade e boa sanidade no centro-sul argentino.
Se a qualidade de Buenos Aires se confirmar: grande impacto para o Brasil
Caso os lotes da região alcancem proteína ≥ 11,5%, dois efeitos imediatos surgirão:
1. Aumenta significativamente o volume de trigo apto a exportação para o Brasil
Hoje, boa parte da safra argentina está marginalizada pela baixa proteína. Mas, se Buenos Aires — que responde por mais de 40% da produção total do país — entregar qualidade acima do piso, teremos:
- maior disponibilidade de trigo panificável,
- redução do prêmio cobrado pelos lotes premium,
- normalização da oferta argentina para o Brasil.
2. Moinhos brasileiros ganham mais opções e ganham poder de barganha
Com mais trigo forte na praça:
- o preço FOB do trigo de qualidade tende a recuar moderadamente,
- o Brasil poderá ampliar compras sem depender apenas de lotes escassos,
- reduções de retenciones (7,5%) passam a ter impacto real, pois incidem sobre trigo que o Brasil realmente pode importar.
3. Reduz a necessidade de blends complexos e dependência do trigo russo
Se Buenos Aires confirmar boa proteína:
- diminui a necessidade de misturar trigo fraco argentino com trigo de maior W,
- reduz parcialmente a dependência do Brasil pelo trigo russo,
- melhora estabilidade de moagem na indústria brasileira,
- favorece previsibilidade de custos para panificação e massas.
A redução das retenciones ganha novo significado
Antes da colheita de Buenos Aires, a queda da alíquota de 9,5% para 7,5% tinha efeito limitado, porque:
barateava o trigo fraco, que o Brasil não pode comprar.
Agora, com a perspectiva de trigo forte, a situação muda:
- O imposto menor efetivamente reduz o custo FOB de lotes elegíveis ao Brasil.
- A Argentina volta a competir mais intensamente com Rússia e EUA.
- A paridade de importação brasileira pode melhorar.
Cenário atualizado para o Brasil
Se Buenos Aires confirmar proteína ≥ 11,5%:
- Haverá bom volume de trigo de qualidade para abastecer os moinhos brasileiros.
- O Brasil volta a operar com Argentina como principal origem.
- Os preços internos podem sofrer pressão baixista moderada em regiões portuárias.
- O prêmio para trigo premium argentino tende a cair.
- O trigo russo perde parte da vantagem, especialmente com frete e seguro em alta.
Se a qualidade NÃO se confirmar:
- O trigo forte permanece escasso,
- Os preços FOB premium seguem altos (US$ 185–210/t),
- O barato continua restrito ao trigo fraco,
- Moinhos brasileiros seguirão misturando origens e administrando custos mais elevados.
Conclusão
A redução das retenciones pelo governo Milei ganha novo peso justamente quando a colheita chega à região mais promissora da Argentina. A partir de agora, a qualidade do trigo de Buenos Aires será o fator determinante para definir:
- o preço real do trigo argentino para o Brasil,
- a oferta disponível para moinhos brasileiros,
- o comportamento do mercado interno de trigo,
- e a necessidade de importação de outras origens.
Se Buenos Aires entregar proteína acima de 11,5%, a Argentina poderá abastecer confortavelmente o Brasil com trigo panificável, e a pressão sobre os preços internos tende a aumentar.
A Agromaxima continuará monitorando diariamente a qualidade, proteína, W, PH e preços FOB para antecipar oportunidades para produtores, moinhos e indústrias de derivados.
